29 de nov de 2017

Eu Não Aguento Mais!


Eu estava pensando em gravar um vídeo para o meu canal, mas como não tenho espaço para isso, resolvi escrever para o blog.

Acho que quem me acompanha aqui, deve ter visto a presepada que aconteceu em um programa da Rede Globo. Foi triste ver que em pleno ano de 2017 ainda se faça aquele tipo de piada.

O canal Yo Ban Boo fez um vídeo falando sobre e, para variar, teve muitos brancos dizendo que não viram nada de mais que era vitimismo, coitadismo e até fraqueza.

Vitimista? Acontece que não me senti ofendida apenas com o vídeo, mas sim por ter crescido e até hoje ainda ser chacota simplesmente por ser descendente de japoneses. Se tem descendentes que não acham nada demais, OK, mas não venha dizer que quem se sentiu ofendido é vitimista, afinal, cada pessoa recebe de uma maneira, cada pessoa vive de uma maneira, cada pessoa sabe o que sente e NINGUÉM tem o direito de dizer que a pessoa se faz de vítima. O que me deixa triste é ver asiático-brasileiro desmerecendo a fala do outro, é ver asiático-brasileiro servindo de chaveirinho de branco que se acha no direito de dizer o que é ofensivo ou não para os não-brancos.

Um dos argumentos mais usados foi o que os japoneses também não tratam bem os brasileiros que vão lá, usaram imagem de um programa de TV sul-coreano onde faziam blackface. O que não entendi foi: QUAL É A DIFICULDADE DE ENTENDER QUE ESTAMOS FALANDO DE UM PROBLEMA NO BRASIL? País esse que se orgulham tanto de ser miscigenado, mas que tem o racismo tão escancarado. Sim, há racismo no Japão, na Coreia, em qualquer outro país, mas a questão não é essa.

Disseram que somos uma tal de “geração lacração” que é a geração que se ofende por qualquer coisa.

Essa tal “geração lacração” não se ofende por "qualquer coisa", essa tal “geração lacração” está falando aquilo que os incomoda e os machuca desde criança, essa tal “geração lacração” está juntando as vozes para que as coisas mudem, para que nos respeitem, para que os futuros descendentes não tenham que passar por isso, não tenham que ser motivo de chacota para ninguém. Acho que fica bem fácil falar que o vídeo é inocente quando não é você quem é o motivo da piada o tempo inteiro, né? A questão aqui, não é fraqueza, se fôssemos fracos continuaríamos quietos levando essas chacotas "na boa".

E não, eu não escolhi me sentir ofendida, ao contrário das pessoas que escolheram, deliberadamente, ofender e ainda ter passe livre pra isso.

Disseram que foi brincadeira e que os participantes do programa estavam se divertindo e que era besteira nos ofendermos por eles.

Não sei qual está sendo a dificuldade de entender que as coisas vão além do vídeo. Na TV, propagando isso, vão continuar achando que é OK falar esse tipo de coisa para qualquer um. E não, em momento algum eu disse estar me ofendendo por eles, mas sim que eu já passei e passo por isso e me ofendo. Mas parece que não posso, é errado, já que uma pessoa que não cresceu escutando o que escuto até hoje, disse que é frescura. Uma pessoa não asiática-brasileiro, está querendo me ditar o que é ofensivo ou não para mim. Tá certinho 👍👏

Eu acho um erro muito grande quando dizem para deixar para lá, que somos melhores que isso para nos importar com zombaria, que temos que engolir e seguir. Mas não, isso tá errado, muito errado! Asiático brasileiro tem que engolir nada não. Até aqui vínhamos engolindo tudo e por isso se perpetua e a TV ainda continua a propagar. Fingir que não existe, não vai desaparecer. Acredito que devemos sim, mostrar e apontar essas merdas que vínhamos engolindo para que não continue a se propagar. Não quero que as gerações futuras continuem servindo de chacota pra branco se divertir. Ser forte, não significa se machucar.

Eu me pergunto como que o pessoal pode se incomodar tanto com o politicamente correto. Acham mesmo que era tudo super ok? Qual a dificuldade de entender que tudo sempre foi muito errado, mas agora, finalmente estão tomando coragem de dizer o que machuca?

Eu até entendo o "Não ligo, deixa pra lá", porque de tanto escutar dessas, acaba se blindando (eu me blindei de muita coisa), mas qual a dificuldade de deixar em paz quem quer mudar? Será que essas pessoas blindadas querem mesmo que os filhos, sobrinhos, primos, afilhados, filhos de amigos, filhos da vizinha, escutem a mesma coisa que eles escutaram? Querem que passem pelo mesmo? Porque assim, eu não quero isso para o meu sobrinho e capaz de eu brigar com alguém que ouse mexer com ele!.


O caminho ainda é longo, mas se tem tanta gente incomodada é porque estamos fazendo certo! 

3 de mai de 2017

"Amizades"


Ontem fiquei sabendo que eu tinha, pelo menos, quatro pessoas no meu Facebook que acham que a militância asiática é uma "opressão pra chamar de minha". Olha, sinceramente, a última coisa que eu queria, era ter uma opressão pra chamar de minha, já me basta ser mulher, não precisaria de mais sarna pra coçar.

Fiquei sabendo que essas mesmas pessoas riem de mim e disseram que apenas eu problematizo "pastel de flango" e que só falo disso, como se fosse só isso que importasse na militância asiática. Aí fica bem nítido que não leem minhas publicações. Aliás, quantas militantes asiáticas elas tem para dizerem que só eu falo disso? Se só eu me importo e falo disso? Tem certeza?


Disseram que "pastel de flango" não é uma coisa para se importar porque não é recorrente, é irrelevante... Não é recorrente pra quem? É irrelevante pra quem? Em que mundo vive para dizer que não é recorrente?

A falta de empatia foi tão imensa que me deixou bastante chateada. Não só pelo fato de estarem no meu Facebook, mas pelo fato de diminuírem a luta alheia e ainda debocharem da minha cara! Me senti bastante humilhada.

Aparentemente, não ser mais militante feminista é aval para ser escrota com as pessoas. O pior é que tudo isso é em nome do famoso “lacre”. Sim, se a pessoa é escrota aleatoriamente, sempre tem os comentários “Pisa menos, eu te imploro”, “Que pisão!”, “Lacrou!”. Se lacrar é humilhar, falar mal e debochar das pessoas, inclusive das que estão entre os amigos, não quero nunca lacrar. Tenho 34 anos na cara já, não tenho mais saco para as lacradoras que acham que é super demais falar mal de todo mundo e diminuir a luta alheia.

Se a militância alheia não te diz respeito, por que diminuir? Acredito que, se já foi militante, sabe e entende o que é empatia, deixar de militar não é sinônimo de não praticar mais a empatia. Por que ao invés de diminuir e debochar da militância alheia, você não procurar saber mais? Não quer? Ok, direito seu, mas não debocha, não faça chacota e, muito menos, humilhe a pessoa que pertence a essa militância.

Quem ler isso pode falar “Ai, Yayoi, pra quê dar tanta importância assim?”, porque eu tenho certeza que não são só elas que pensam assim, mas espero não ter mais pessoas desse tipo no meu meio.
O que me deixou aliviada é que, ao desabafar, vi que outras amigas aprendem comigo e me deram palavras de carinho.
E assim é a militância, cansativa, decepções no caminho, mas alguma coisa a gente consegue plantar.


7 de mar de 2017

Japão = Ásia?



Como se não bastasse, a “O Boticário”, ter feito a linha “Africaníssima, agora chegou a vez da “Ásia Moderna”. Ásia essa que, claramente, remete apenas ao Japão. Ele colocam leques e kokeshi nos cartazes e embalagens, modelos brancas andando nas ruas de Tóquio em meio as placas escritas em neon, modelos brancas de quimono e uns palitos na cabeça, pronto, “Ásia”, sendo que na real, é só Japão. Eles poderiam ter denominado a linha como “Japão Moderno” ou só “Japão”.

No comercial tem sim, asiáticas, e nos cartazes também. A capa do Facebook da marca é uma modelo asiática, que fiquei sabendo que é uma chinesa. E sim, chinesa mesmo, não descendente brasileira. O que já acho um desrespeito e desvalorização com as modelos brasileiras. O que acho mais engraçado é que o tema é “Ásia” e tem modelo branca no meio, aliás, em sua maioria. Tem umas asiáticas e uma (s) negra (o que é super legal), mas no geral é branca... E nem me venham falar que é porque quase não tem asiáticas porque tem sim, só que querem deixar tudo branco europeu mesmo.

Confesso que me irrita um pouco esse negócio de Ásia = Japão. Ásia não é só China, Coreia do Sul, Coreia do Norte e Japão. Quando as pessoas dizem que queriam ser asiáticos, pensam, apenas, em Japão e Coreia do Sul...

A indústria vende a Ásia como “produto” exótico, mas não valoriza os asiáticos. Aliás, é irritante esse clichê todo que fazem em volta do Japão. Quimono, leque, usa umas gueixas de enfeite e vende o produto. É cansativo, sabe?
Uma hora “Ó, Ásia!” outra hora “Chineses porcos, malditos, comedores de cachorros!”, “Japoneses são honestos e trabalhadores”, “Volta pro teu país, japonês!”

É bem chato a indústria querer lucrar em cima de um continente sem ao menos divulgar sua história, sem ao menos respeitar o indivíduo. Não estou dizendo apenas dessa coleção nova, mas da anterior também. Estava tão bom quando estava no “Urban Ballet” ou qualquer outra coisa que não seja apagamento de indivíduos.

Vejam bem, a crítica não é ao indivíduo, não é às modelos, não é à agência de publicidade, mas sim unicamente à indústria.
E, mais uma vez, brancos tirando a identidade de todo um continente para ganhar dinheiro. Pouco importa o apagamento, pouco importa a representatividade, o negócio é agradar aos brancos e fazer dinheiro